terça-feira, 8 de abril de 2008

Rapper lança documentário, livro e álbum sobre meninos do tráfico




MV Bill: Se eu fosse o general de um grande exército faria uma grande invasão nas favelas do Brasil, com as armas da saúde, da educação, da cultura, do conhecimento, da oportunidade, da visibilidade, do desenvolvimento.
O projeto “Falcão – Meninos do Tráfico” promete ser um soco no estômago de milhões de brasileiros. O trabalho é resultado de uma pesquisa iniciada em 1997 pelo rapper MV Bill e seu produtor, Celso Athayde.
Por Nelson Breve
“Eu trafico para ajudar minha mãe. Eu sei que ela não gosta, mas eu trafico para ajudar ela”, conta o pequeno Falcão para a câmera que lhe enxerga com humanidade.
Garotos com menos de 15 anos, segurando armas pesadas para vigiar os pontos de tráfico de drogas em favelas de 20 capitais do Brasil. Eles falam da infância miserável, da vida marginal, dos sofrimentos, da discriminação e da guerra que banalizou a morte violenta na sociedade brasileira. Falam com carinho das mães, com revolta dos pais, dos seus sonhos e do futuro, que sabem: será curto. Quase todos estarão mortos dois anos depois. As imagens de seus corpos baleados e da família inconformada também serão mostradas no documentário de 58 minutos que a TV Globo exibirá hoje, domingo (19), durante o Fantástico.
“Falcão – Meninos do Tráfico” promete ser um soco no estômago de 50 milhões de brasileiros. O trabalho é resultado de uma pesquisa iniciada em 1997 pelo rapper MV Bill e seu produtor, Celso Athayde. Durante seis anos, eles aproveitaram o calendário de shows para percorrer comunidades de todos os cantos do Brasil com uma câmera digital na mão e uma idéia na cabeça: registrar depoimentos e imagens dos garotos que trabalham no tráfico com o olhar de quem busca compreendê-los e não condená-los. São mais de 200 horas de gravação, segundo Athayde.
Desse material, 90 horas foram disponibilizadas para a Globo fazer uma primeira edição. O documentário deveria ter sido exibido em agosto de 2003. A emissora fez uma ampla divulgação, mas, poucos dias antes do programa, MV Bill e Athayde suspenderam misteriosamente a autorização, alegando motivos pessoais. A atitude provocou especulações. Chegaram a desconfiar de que eles tinham sido ameaçados por chefes do tráfico. Também se comentou na época que haveria um interesse comercial da Columbia Pictures nas imagens cedidas à TV Globo.
Dois anos e meio depois, a Globo volta a investir pesado na divulgação. Fala-se em R$ 20 milhões em propaganda nos diversos meios de comunicação de todo país. O objetivo da emissora é uma incógnita, mas o dos produtores é mostrar o outro lado de uma realidade que a sociedade conhece pela metade. “O projeto Falcão é uma reflexão sobre segurança pública do ponto de vista de quem nunca falou. Não é para tornar os meninos do tráfico heróis, muito menos vilões. É para torná-los mais humanos e discutir a questão do ponto de vista de quem é vitima e de quem é culpado”, explica Athayde, um ex-menino de rua, que morou na favela do Sapo, em Camará, e descobriu no movimento hip hop um instrumento de luta contra a discriminação racial e a desigualdade social.
Buscando talentos nas favelas do Rio, ele encontrou MV Bill, um jovem rapper com idéias parecidas com as suas. Os dois pensam que ficar só no discurso e na denúncia não leva a nada. Eles acreditam que o movimento tem que partir para a ação. “Hip hop não é um movimento musical, é um movimento de jovens negros de periferia”, explica Athayde. “Nós queríamos mudar a linguagem. Tinha muito discurso e não tinha prática. Podia se transformar em mais um indústria de denúncia e não ter alternativa”, acrescenta o produtor na conversa que teve com a Carta Maior na última quinta-feira, a caminho da Cidade de Deus para encontrar com MV Bill.
Nessa perspectiva, eles criaram a Central Única das Favelas (Cufa), entidade que organiza um festival anual de hip hop (Prêmio Hutúz), que já foi incluído no calendário oficial da cidade do Rio de Janeiro. Com apoio de instituições governamentais e não-governamentais, a Cufa está construindo em Madureira um centro cultural e esportivo para formação da identidade dos jovens ligados à cultura hip hop. O investimento inicial é de R$ 4 milhões. Lá, eles pretendem ampliar o trabalho que vem sendo feito há anos com jovens das comunidades do Rio, em atividades como basquete de rua, grafite, música e audiovisual.
Assim surgiu o projeto Falcão, que só recebeu esse nome muito depois, quando eles verificaram que a autodenominação dos garotos que servem como soldados para proteger o tráfico nas favelas tinha se espalhado pelas comunidades de várias regiões do Brasil. MV Bill descobriu também que a realidade que ele conheceu na infância na favela da Cidade de Deus é a mesma não só dos morros do Rio de Janeiro, mas de todas as periferias de Porto Alegre a Manaus. Os garotos estão sendo aliciados pelo tráfico porque não encontram outras perspectivas de uma vida mais estimulante, embora mais curta. “Vimos em todas as nossas cidades os meninos encontrando no tráfico de drogas o caminho para sobreviver”, conta MV Bill.
Além do documentário a ser exibido pelo Fantástico, o projeto Falcão tem outros lançamentos previstos. Amanhã, segunda-feira (20), MV Bill e Celso Athayde colocam nas livrarias o livro “Falcão – Meninos do Tráfico”, que conta os bastidores das filmagens misturados com impressões que eles tiveram em outros momentos relacionados com a discriminação e a desigualdade. A obra já sai como best-seller, assim como o livro anterior, Cabeça de Porco, que também foi inspirado no projeto e foi escrito em parceria com o sociólogo Luiz Eduardo Soares, ex-secretário Nacional de Segurança Pública. Já foram impressos 100 mil exemplares, que estão sendo distribuídos pela Editora Objetiva.
Em 18 de maio, MV Bill lança seu terceiro CD, “Falcão – O Bagulho é Doido”. Assim como o disco anterior, Declaração de Guerra, as letras foram todas escritas no período em que os depoimentos dos meninos foram colhidos. Em 12 de outubro, Dia da Criança, a Columbia Pictures faz o lançamento do documentário Falcão – O Sobrevivente, com imagens diferentes das exibidas pela Globo. O filme, com cerca de duas horas de duração será exibido em circuito internacional.
O nome é uma referência ao fato de que dos 17 garotos que seriam o fio condutor do documentário, 16 morreram em um espaço de dois anos. O sobrevivente escapou da sina dos falcões porque está preso. “O filme era para falar sobre a vida dos meninos. Acabou falando sobre a morte. Quando soube que o último sobrevivente havia sido preso, agradeci a Deus pela prisão. Era uma forma de garantir a vida dele”, revela MV Bill na entrevista.
Como surgir a idéia do documentário?MV BILL - Quando começamos nossa pesquisa, entre 97 e 98, vi muita coisa acontecendo com os jovens. Daí surgiu a letra de Soldado do Morro (do CD Traficando Informação, de 1999). Eu chamei o Celso Athayde para fazer o videoclip e entrevistamos vários garotos. Quando voltamos lá algum tempo depois, 80% dos jovens estavam mortos. Aí eu percebi que a música e o vídeo eram importantes, mas insuficientes para interferir na realidade. Então, começamos a filmar os garotos das comunidades das cidades onde íamos fazer os shows. Fomos identificando jovens que viam na criminalidade uma maneira de vida. A coisa foi acontecendo. Talvez seja a única oportunidade de retratar esses jovens de outra maneira, com outros olhos. Falar com eles e mostrá-los de uma maneira mais humana.
O que mais te impressionou?MB - Escolhemos 17 jovens como fio condutor do documentário. As falas deles eram muito ricas, sobre os sonhos, a vida, a família, o futuro. Disseram coisas que nunca tiveram oportunidade de dizer para outras câmeras. Percebi que, mesmo a droga, que é a tragédia de tantas vidas, é a sobrevivência de tantas outras. Fomos acompanhando o que acontecia com eles. Dezesseis morreram no espaço de dois anos. As mães deles, na hora mais difícil, ligavam para a gente dizendo “meu filho morreu, venham filmar, porque ele acreditava que o trabalho de vocês era importante”. O filme era para falar sobre a vida dos meninos. Acabou falando sobre a morte. Quando soube que o último sobrevivente havia sido preso, agradeci a Deus pela prisão. Era uma forma de garantir a vida dele.
Sua experiência de infância na favela influenciou na proposta do documentário?MB - O fato de morar na Cidade de Deus, ser nascido e criado lá, faz com que enxergue as coisas diferente. Não consigo ver como bandido quem brincou comigo quando era criança. Todos os meus amigos de infância estão mortos. Os que estão vivos são cadáveres ambulantes. Tive uma infância padrão para quem nasce em comunidade. Estudar até onde der. Conciliar estudo e trabalho. Uma hora tem que optar porque fica muito difícil. Na favela tem o que chamo de sonhos adiados. Descobri que o tráfico, de forma trágica, dá respeito, visibilidade. Andar com uma arma na favela impõe respeito. Todo mundo quer ser visível. Encontrei a música, mas ela não é o único caminho. É um dos caminhos. Não tem o mesmo caminho para todos. Procurei retratar isso nas músicas. Quando criamos a CUFA, tivemos a oportunidade de praticar o discurso. O projeto todo pratica. Conversar com as pessoas, mostrar a realidade. Não só cantar. Falo e brigo por interesses de outras pessoas. Porque, geralmente, as pessoas que ficam famosas e têm espaço na mídia acham difícil defender. Nós vamos continuar fazendo o que já fazemos há muito tempo, a inclusão da comunidade através da CUFA. Trazendo os problemas para discussão.
Qual a conclusão que tiveram dessa experiência?MB - Não é caso de polícia, de Justiça. É caso de educação, cultura, oportunidade, igualdade. Nas viagens dos shows tive a sensação de que havia mais de dois brasis. E nós estávamos lidando com os mais descuidados. A realidade do Rio é compartilhada no Brasil inteiro. Quando fiz um show em Minas Gerais, teve um tiroteio com três mortos. Dois de uma comunidade e um de outra. O jornal sequer noticiou. Mas os jornais noticiam um tiroteio em Ipanema sem nenhum ferido. Esse projeto é uma oportunidade de mostrar a vida sendo banalizada. Vimos em todas as nossas cidades os meninos encontrando no tráfico de drogas o caminho para sobreviver. Isso está acontecendo com garotos das periferias de cidades como Porto Alegre e Curitiba.
Como mudar essa realidade?MB - Não devemos responsabilizar governos. Não é algo de agora, não é culpa do governo atual. Mas essa é a oportunidade para brecar. Acabar é impossível. Nem os EUA conseguiram. Temos que combater a falta de educação, de saúde, de cultura, de conhecimento, de oportunidade. Esse é o momento de todos fazerem uma reflexão para saber onde está indo o Brasil. Se eu fosse o general de um grande exército faria uma grande invasão nas favelas do Brasil. Mas não da forma tradicional. Eu invadiria com as armas da saúde, da educação, da cultura, do conhecimento, da oportunidade, da visibilidade, do desenvolvimento. Essa experiência me mostrou que essas são as armas para combater melhor a violência.
Racionais MC´s entre os 100 maiores da música


Dois discos do grupo estão na lista divulgada pela revista Rolling Stone Brasil. Da redação Com informações da revista Rolling StoneA Revista Rolling Stone Brasil publicou em sua edição de primeiro aniversário em outubro, a lista dos 100 maiores discos da música brasileira. Entre tantos nomes consagrados da nossa música como Jorge Ben, Tim Maia, Roberto Carlos, João Gilberto e outros, se encontra dois discos do grupo de rap paulistano Racionais MC´s.



Os cinco primeiros selecionados são os Novos Baianos com Acabou Chorare d e1972, Tropicália de 1968, Chico Buarque com Construção, João Gilberto com Chega de Saudade e Secos e Molhados. O disco “Sobrevivendo no Inferno” dos Racionais MC´S (1998 – Cosa Nostra) ocupa a 14º posição. Estando a frente de discos consagrados como: Titãs, “Cabeça de Dinossauro”, Tim Maia Racional, Legião Urbana “Dois” e vários outros, como todos os do Rei Roberto Carlos. Lançado dez anos depois que Mano Brown, Ice Blue, Edi Rock e KL Jay resolveram virar os Racionais MCs, Sobrevivendo no Inferno colocou o rap no topo das paradas, vendendo mais de meio milhão de cópias. A música, com sua bateria básica, alguma melodia nos teclados e arranjos simples, vira adereço e, relação ao impacto das letras. Racismo, miséria e desigualdade social – temas cutucados nos discos anteriores – são aqui expostos como uma grande ferida aberta, vide “Diário de um Detento”, inspirada na grande chacina do Carandiru.Seguido por Mundo Livre S/A, João Donato e Tom Jobim. O Racionais MCs “Nada como um dia após outro dia” (2002 – Zâmbia), ocupa também a 88º posição no ranque dos 100 maiores discos da música brasileira. A ascensão dos Racionais está ligada à paulistanização do Brasil. À medida em que o dinheiro do Rio se deslocava para o outro lado da Dutra, o Brasil deixou de falar “S” chiado para chamar os caras de “manos”. Os Racionais são a Legião Urbana da parte pobre do país e Renato Russo era só um indie birrento perto do magnetismo de Mano Brown. E se música é filme, “Nada como um dia após outro dia” é algo entre o Godfellas e o Casino do gangsta brasileiro, e transformar o rap na trilha de um Brasil paulistano, cheio de grana e desconfiado. Barão e noiado. “Vida Loca”, como dizem”. Dois discos de Rap nacional na lista dos 100 maiores discos da MÚSICA brasileira. Somos ou não somos música!!?? Confira outros disco eleitos no site www.rollingstone.com.br

sexta-feira, 4 de abril de 2008


Apocalipse 16 - Ao VivoGravado em Junho de 2006 o grupo Apocalipse 16 celebrou 10 anos de existência com uma performance espetacular de um dos maiores grupos de Rap do Brasil. Uma produção nunca vista antes na história do Rap brasileiro com uma grande estrutura profissional e altíssima qualidade musical com novos arranjos e participações especiais de Rappin Hood, Thaíde, Pr.Adhemar de Campos, Robson Nascimento, Xis e DBS que abrilhantaram esse memorável evento. Confira esta noite especial do Apocalipse 16 em comunhão com os amigos, fãs e sobre tudo com Deus.



AO CUBO - Respite FundoEste DVD traz o grupo paulistano de rap Ao Cubo, numa fantástica apresentação acústica, gravada ao vivo em São Paulo. Expondo toda sua ideologia cristã, o grupo mostra sua mensagem de paz através de composições criativas e racionais. Destaque para as faixas "Naquela Sala", "Incline Seus Ouvidos" e "Respire Fundo". Confira!





CONEXÃO HIP-HOP







OBSESSIVE FUNK









Racionais mc´s - 1000 trutas 1000 tretasOs Racionais MCS surgiram em 1988 na coletânea "Consciência Black" com os sucessos "Pânico na Zona Sul" e "Tempos Difíceis". Formado por Ice Blue, Mano Brown, Eddy Rock e DJ KL Jay, respectivamente Zona Sul e Zona Norte, impressionaram de cara com a realidade de suas letras e em 1990 lançaram seu primeiro disco "Holocausto Urbano" que aos poucos foi conquistando seus ouvintes e uma legião de fãs. De lá prá cá, foram vários discos de sucesso que agora, 18 anos depois, culmina com o lançamento do primeiro DVD, ao Vivo "1000 Trutas 1000 Tretas" com 15 faixas. Apenas sucessos. O DVD, além do show, tem (nos extras) um documentário sobre o hip hop, do início até os dias de hoje. Não perca quase 3 horas da mais fantástica viagem dentro do mundo do Rap.Faixas:01. A Benção Mamãe, A Benção Papai (part.especial Jorge Ben Jor)02. Fórmula Mágica da Paz03. Negro Drama04. Tô ouvindo algo05. Crime vai e vem06. Da ponte prá cá07. Expresso da meia-noite08. Eu sou 15709. Diário de um detento10. A vida é desafio11. 1 Por Amor 2 Por Dinheiro12. Vida Loka (Parte 1)13. A vítima14. Jesus Chorou15. Vida Loka (Parte 2)






















100% FAVELAEste DVD é o resultado dos registros feitos das atividades organizadas pelo Grupo Negredo, junto a favela de São Paulo onde vivem e coordenam o Projeto Periferia Ativa. O cotidiano, a colaboração, o Rap, família e o limite com a criminalidade, são alguns dos temas abordados neste DVD, além de exemplos de vida e iniciativas de prevenção da marginalidade.Ano de Lançamento: 2006
Atores/Artistas: VáriosPaís/Ano de Produção: Bra - 2006Duração: 205 MinutosFaixa Etária: LivreIdiomas: PortuguêsÁudio: Dolby Digital 2.0, 5.1Legendas: Português, Espanhol e InglêsExtras: - Menu Interativo- Seleção de Músicas



























APERTE O PLAY 2
Pra quem conferiu o Aperte o Play 1, chega mais uma versão do CD e DVD que desta vez vai emocionar ainda mais.
Gravado em SP no palco da Bradway, após um ano, aconteceu mais um dos melhores shows do movimento hip hop nacional, o Aperte o Play 2, reuniu novamente grandes nomes do rap. um show marcado pela super produção em grande estilo, onde a entreda no palco, partiu de uma cela (cadeia), enfatizando o tema abordado que desta vez foi "A Verdade que Liberta" são 10 faixas marcadas pela performance dos grupos que refletem o tema abordado.
Com certeza mais um trabalho dedicado à Glorificar o O Rei.
nomes como Mano Reco, Tina, 3RG e Lito Atalaia participam desse projeto, vale a pena conferir.























DVD Rap Brasília 2006Uma coletânea com os melhores vídeoclipes de 2006. Já nas lojas








Racionais rap e cia.


Dentre os artistas marginais surgidos nas duas últimas décadas, os Racionais MC's são os que melhor expressam essa dualidade no projeto criador. O grupo, formado por Mano Brown, Ice Blue, KL Jay e Edi Rock, surgiu no final dos anos de 1980, na esteira da afirmação do hip-hop na cena paulistana. Agenciados, inicialmente, pelo produtor musical Milton Sales, os Racionais MC's declararam a sua independência em Sobrevivendo no Inferno (1997), produzido pelo selo independente Cosa Nostra, de propriedade grupo.
É também nas letras de Sobrevivendo no Inferno que se verifica uma reformulação temática. Os trabalhos anteriores, de Holocausto Urbano (1992), passando por Escolha o seu Caminho (final de 1992) até Raios-X do Brasil (1997), a problemática girava em torno da violência, racismo, pobreza circunscritos à periferia da zona sul de São Paulo. As músicas dessa fase funcionaram como verdadeiro instrumento de denúncia e crítica social.
Já em Sobrevivendo no Inferno e Nada Como um Dia Após o Outro Dia o discurso torna-se messiânico. Nele, o céu e o inferno, Deus e o Diabo travam uma luta sem trégua na consciência do periférico, que vivendo no mundo das incertezas e simulações não visualiza outra saída senão a de cuidar de si e dos parceiros de batalha. A vida na favela ensina que, num mundo dominado pelos vermes e pelo Zé povinho, poucos são merecedores de confiança. Aliás, a confiança é vista como uma mulher ingrata que te beija, te abraça, te rouba, te mata. (Vida Loka, Nada Como um Dia Após o Outro Dia, 2002).
O projeto criador dos Racionais MC's será, desde o início, assinalado pela dualidade sucesso/autonomia artística. E os conflitos daí resultantes estarão inscritos nas letras de suas músicas, o que nos dá uma ótima oportunidade de pensarmos a problemática da percepção dos artistas da periferia quanto à produção cultural no capitalismo brasileiro.

Letra Castelo triste ...


Castelo Triste
Aí Edu eu preferia nem ter acordado, sonhei que eu era um jogador fazendo gol no estádio.
Corria feito velocista atrás da bola, sem precisar ser empurrado numa cadeira de rodas.
Nasci morto como num romance de Agatha Cristie, enclausurado no calabouço do castelo triste.
Só se eu fosse Hitler em outra encarnação, pra ter músculos atrofiados como condenação.
Isso é pena pra estuprador, político filho da puta, pra gambé que põem flagrante no bolso da blusa.
É humilhante você me limpando, trocando minha roupa, me dando banho, comida, água na boca.
Os moleques da minha idade tão de skate no half, na roda de breack dando moinho no baile.
Enquanto abrem o sutiã da namorada, eu com o corpo com escarra, sonho com um colchão d´água.
No meu aniversário estraguei a festa, me revoltou não ter força pra soprar a vela.
Nem me equilibrar num carro de rolimã Deus deixou, pra ajudar minha mãe, vendendo adesivo no metrô.
Queria ela ouvindo Roberto, não o vigia do mercado, não incomoda os clientes pedindo trocado.
Sai da escola sem ler, sem saber multiplicação, vencido pelo riso dos alunos que me olhavam como aberração.
Joga a última flor, não chora quando o caixão partir, é a ponte levadiça do Castelo Triste se abaixando pra eu fugir.
O mundo cultua a idolatria do corpo perfeito, joga no hospital psiquiátrico o humano com defeito.
Sem triagem, seleção, diagnóstico, doente mental, físico, auditivo, num depósito.
O vegetal com fralda geriátrica é descartável pra família, mais não o seu cartão da aposentadoria.
Aí cusão preconceituoso Bethoven era surdo, Stevie Wonder é cego e encanta o público.
Depois de Eisten o físico mais brilhante do planeta, Stephe Hawking, o matemático preso numa cadeira.
Aqui te dão no estacionamento o espaço reservado, mais não o emprego pra comprar o carro adaptado.
Odiava ir na USP, fazer hidroterapia, o busão todo xingando enquanto a rampa subia.
Dia 26 de março de 95, queria esquartejar o roteirista do meu destino.
Porra Deus não tava bom eu na cama paralítico, tinha que levar minha mãe num ataque cardíaco.
Não pude ir no estádio, empinar pipa, andar de moto, até pra por uma flor no caixão me puseram no colo.
Qual que é a pegadinha? Sou seu rato de laboratório? Ta testando quanto um coração armazena de ódio.
Boni não vive sem Claide, nem o verso sem o poeta, Romeu não vive sem Julieta, eu não posso viver sem ela.
Jogue a última flor, não chora quando o caixão partir, é a ponte levadiça do Castelo Triste se abaixando pra eu fugir.
Tosse com sangue, febre, inflamação na garganta, Edu esquece o 192, e a porra da ambulância.
Chega no P.S, é soro e inalação, libera na madruga e pra voltar sem busão.
O estagiário que atende como clinico geral, receita pra leproso AS, e melhoral. Após 6 tentativas internado com pneumonia, Edu de acompanhante dormiu no chão 20 dias.
Empresário quer sua marca líder no comercio, anuncia no programa que ridiculariza o tetraplégico.
Lágrima no auditório, sonoplastia que comove, apresentador melodramático em vez de prótese ganha ibope.
Mano vai na AACD antes do back, do mesclado, ver quantos anos de fisioterapia por um passo.
Ver quantas sessões de fono por uma palavra, veja na paraolimpiada a superação pela medalha.
O patinho feio não virou cisne como no livro da biblioteca, morreu depois da alta, da negligencia médica.
Pela primeira vez tratado sem discriminação, esperei 18 horas o rabecão.
Não chora Edu, o céu existe, eu to feliz de ir pra lá, se não poder pisar nas nuvens anjos tem asas pra voar.
Triste é quem fica entre preconceito, muletas, amputações, só não esquece de por no caixão o agasalho da gaviões.
Jogue a última flor, não chora quando o caixão partir, é a ponte levadiça do Castelo Triste se abaixando pra eu fugir.

Letra O espetaculo do circo de horrores


O Espetáculo do Circo dos Horrores
(Eduardo)
Respeitável público com orgulho apresento O espetáculo em cartaz desde abril de 1500 Sem pipoca algodão doce, que rufem os tambores Abrem-se as cortinas do CIRCO DOS HORRORES Aplaudam nosso Houdini no picadeiro Serrando em duas partes o corpo do banqueiro Equilibrista na marquise invadindo flat de luxo Contorcionista em fuga da penita pelo túnel Tigre mata o domador enquadra o distrito Recupera o arsenal do seu paiol apreendido A maçã que o atirador de faca divide E do rosto do delegado da D.I.G Conflito grupos culturais, religiosos, A terceira guerra só não tem certificado em cartório País católico pra máxima crista é ateu Repartir o pão não, ai fudeu Vai artilheiro faz o gol ganha o bicho Se não dispenso sua mãe em 10 sacos de lixo Com as emissoras disputando o melhor ângulo O motolink foca o sangue tem empresa anunciando Estado quer o preso destruindo presídio Reforma e superfaturada, motim é lucrativo Cabrum caiu o vidro a pedrita e infalível Veio a pasta e o mastercard do executivo Plá quebrei o mindinho Clá-clá o indicador Clá o polegar lembrou a senha né doutor Sou a vingança do professora negra da favela Que na aula o aluno rico joga moeda No globo da morte a moto leva o jornal do dia Com a letra da seqüestrada pro pai ver que ta viva A paz não brota no jardim com câmera e sensores Bem vindo ao espetáculo do circo dos horrores
(Refrão 4x) Bem vindos ao espetáculo todos espectadores Facção apresenta o circo dos horrores
(Dum Dum)
A inteligência filma o trafico da sacada Mas não trinta pessoas sendo chacinadas Nem grampeia as ameaças no orelhão comunitário Morador que depor e finado Não tem cessar fogo, tratado de paz se foi Enrrolaram com ele um mentolado e deram uns dois O jornal da igreja universal semanário Aqui serve pra conter bosta na gaiola do papagaio Desvalorizamos a mansão no mercado Deixamos em colapso setor imobiliário Compra um fiesta popular pra não chamar atenção Mas queria ta de mercedes, quem e livre então cuzão? Aqui 3% da população do mundo E 13% do ranking global dos defuntos Queria na tela o nome das empresas do brasil Que exploram a mão de obra infantil A TV não tem cultura e só futilidades Foda-se a puta expulsa do casório do craque Que se foda se atriz deu, se o ator e viado Se a cantora tem 1000 plasticas no rabo Não e ilusionismo e um louco acorrentado Por que e caro o tratamento adequado Não ta vendendo maçã do amor e buceta da esposa Pra pagar divida de droga na boca Palhaçada é a mulher levando jumbo pro safado Que na cadeia com traveco e casado Engolidor defogo num gran-finale apoteotico Bebe querosene com o ladrão riscando o fósforo A energia atômica mata e cura câncer A mão que derrama sangue pode escrever romance A paz não brota no jardim com câmera e sensores Bem vindo ao espetáculo do circo dos horrores
(Refrão 4x) Bem vindos ao espetáculo todos espectadores Facção apresenta o circo dos horrores