sexta-feira, 4 de abril de 2008

Racionais rap e cia.


Dentre os artistas marginais surgidos nas duas últimas décadas, os Racionais MC's são os que melhor expressam essa dualidade no projeto criador. O grupo, formado por Mano Brown, Ice Blue, KL Jay e Edi Rock, surgiu no final dos anos de 1980, na esteira da afirmação do hip-hop na cena paulistana. Agenciados, inicialmente, pelo produtor musical Milton Sales, os Racionais MC's declararam a sua independência em Sobrevivendo no Inferno (1997), produzido pelo selo independente Cosa Nostra, de propriedade grupo.
É também nas letras de Sobrevivendo no Inferno que se verifica uma reformulação temática. Os trabalhos anteriores, de Holocausto Urbano (1992), passando por Escolha o seu Caminho (final de 1992) até Raios-X do Brasil (1997), a problemática girava em torno da violência, racismo, pobreza circunscritos à periferia da zona sul de São Paulo. As músicas dessa fase funcionaram como verdadeiro instrumento de denúncia e crítica social.
Já em Sobrevivendo no Inferno e Nada Como um Dia Após o Outro Dia o discurso torna-se messiânico. Nele, o céu e o inferno, Deus e o Diabo travam uma luta sem trégua na consciência do periférico, que vivendo no mundo das incertezas e simulações não visualiza outra saída senão a de cuidar de si e dos parceiros de batalha. A vida na favela ensina que, num mundo dominado pelos vermes e pelo Zé povinho, poucos são merecedores de confiança. Aliás, a confiança é vista como uma mulher ingrata que te beija, te abraça, te rouba, te mata. (Vida Loka, Nada Como um Dia Após o Outro Dia, 2002).
O projeto criador dos Racionais MC's será, desde o início, assinalado pela dualidade sucesso/autonomia artística. E os conflitos daí resultantes estarão inscritos nas letras de suas músicas, o que nos dá uma ótima oportunidade de pensarmos a problemática da percepção dos artistas da periferia quanto à produção cultural no capitalismo brasileiro.

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